Um ladrão que nos ensina a ter fé
Equipe Christo Nihil Praeponere
Aos olhos da turba incrédula, morriam no Calvário três iguais, três criminosos, três desgraçados. Dimas porém vislumbrou, naquele corpo flagelado, naquela cabeça coberta de espinhos, naqueles pés e mãos cravejados, os nobres membros de um rei.
“A Cruz é um escândalo”, diz São Paulo (cf. 1Cor 1, 23).
Quando diz isto, no entanto, ele não está se referindo ao mero instrumento de tortura sem o Cristo, mas sim às duas coisas juntas: Jesus e o madeiro, o Crucificado e o patíbulo.
Pois o que choca o mundo não é a cruz! Os romanos há muito a usavam, executando com ela um sem-número de pessoas. O que tonteou mesmo a humanidade foi Deus pregado nela — e, depois, os cristãos o pregarem assim ao mundo.
Felizmente, porém, foi dado a um homem penetrar pela fé este mistério: Dimas, o ladrão arrependido, que “roubou” o Céu nos últimos instantes de sua vida (cf. Lc 23, 39-43).
Aos olhos da turba incrédula, morriam ali no Calvário três iguais, três criminosos, três desgraçados. Dimas porém vislumbrou, naquele corpo flagelado, naquela face macerada, naquela cabeça coberta de espinhos, naqueles pés e mãos cravejados, os nobres membros de um rei — um rei com poder de lembrar-se dele após a morte, dando-lhe digna recompensa em seu reino extraterreno: “Lembra-te de mim…”
Jesus lhe responde com a mais bela das promessas: “Em verdade te digo: ainda hoje estarás comigo…” Ah, o que não daríamos para ouvir estas mesmas palavras! E, no entanto, se temos fé no Filho de Deus como aquele ladrão — desprezando toda aparência de derrota da Cruz, e abraçando corajosamente o Salvador que nos visita com ela —, também nós receberemos a recompensa de ver o que ele agora vê, de estar onde ele agora está: com o Rei, no Paraíso.
Hoje, somos chamados a olhar os nossos fracassos pessoais, o despojamento da Igreja, e fazer um ato de fé: Cristo me visita nesta doença, nesta perda; Cristo não nos abandona nesta crise, não nos desampara. Ao contrário, é justamente nestas situações que Ele se mostra como Rei de nossas vidas!
Não é assim quando, depois de muitos anos, revemos alguns episódios de nossa vida, e descobrimos ter sido uma grande graça o que, aos nossos olhos, não passava de tragédia? O filho pródigo mesmo (cf. Lc 15, 11-32), após a volta — “festa, roupa nova, o anel, sandália aos pés” —, com que gratidão a Deus não deve ter se lembrado, várias vezes, da miséria que o levou à conversão; do chiqueiro que o levou de volta à casa do pai; da escravidão que lhe devolveu a liberdade de filho!
Em todos esses eventos — que também nós experimentamos em nossa vida pessoal —, Jesus ostenta seu reinado sobre nós: podemos até pedir nossa “parte da herança”, partir para “reinos distantes” e esbanjar o que julgamos ser nosso; podemos até nos achar senhores de nós mesmos, donos dos próprios narizes (e pernas)… Deus continua a atrair-nos desde dentro, incomodando o coração, ferindo a consciência, e permitindo-nos os males justamente porque Ele é o único capaz de tirar, de todos eles, um bem maior.
Assim se cumpre a profecia que Nosso Senhor mesmo fizera: “E eu, quando for levantado da terra, atrairei todos os homens a mim” (Jo 12, 32).
Verdadeiramente, Ele “reina a partir do madeiro”. Desde aquela Sexta-feira Santa até o fim dos tempos.
Via: padrepauloricardo.org