Oração ao Bom Pastor
Onde apascentais, ó Bom Pastor, que levais sobre os ombros todo o rebanho? (Aquela única ovelha representa de facto toda a natureza humana que tomastes sobre os ombros). Mostrai‑me o lugar de repouso, conduzi‑me à erva boa e reconfortante, chamai‑me pelo nome, para que ouça a vossa voz como ovelha do vosso rebanho e, seguindo essa voz, chegue à vida eterna: Dizei‑me onde está o amado da minha alma.
Chamo‑Vos assim, porque o vosso nome está acima de todo o nome e de toda a inteligência, e nenhum ser racional é capaz de o exprimir e compreender. O vosso nome, expressão da vossa bondade, representa o amor da minha alma para convosco. Como poderei deixar de Vos amar, se o vosso amor por mim, apesar de eu ser morena, Vos levou ao extremo de dar a vida pelas ovelhas do vosso rebanho? Não se pode imaginar amor maior que este: pagastes com a vida a minha salvação!
Dizei‑me onde apascentais o vosso rebanho, a fim de que eu possa encontrar essa pastagem salutar e saciar‑me com o alimento celeste, que é necessário comer para entrar na vida eterna; deixai‑me chegar à fonte e beber da água divina que ofereceis aos que têm sede, deixai‑me beber da água que brota do vosso lado aberto pela lança, e que se converte, para quem a beber, numa nascente de água que jorra para a vida eterna.
Se me admitis nestas pastagens, far‑me‑eis certamente descansar ao meio‑dia, e eu dormirei em paz, repousando numa luz sem sombra. Com efeito, ao meio-dia não há sombra alguma, quando o sol brilha no seu zenite, precisamente na hora em que fazeis descansar aqueles que alimentastes, quando recolheis convosco no redil os vossos filhos. Ninguém pode considerar‑se digno deste descanso do meio‑dia, se não é filho da luz e filho do dia. Só quem se afasta igualmente das trevas da madrugada e das trevas do entardecer, que representam o início e o fim do mal, será conduzido pelo sol de justiça para descansar em pleno meio‑dia.
Ensinai‑me como devo descansar e apascentar‑me e ensinai-me o caminho de repouso do meio‑dia, para que não me afaste da vossa mão que me conduz e não me junte, por ignorância da verdade, a um rebanho que não é o vosso.
Assim falou [a esposa dos cantares], solícita pela beleza que lhe veio de Deus e desejosa de compreender como pode a felicidade durar eternamente.
Do Comentário de São Gregório de Nissa, bispo, sobre o Cântico dos Cânticos (Cap. 2: PG 44, 802)) (Sec. IV)
