O cântico novo do Verbo

São Clemente de Alexandria (150-c. 215) teólogo
Protréptico I, 5-7; SC 2 bis

Este descendente de David que existia antes de David, o Verbo de Deus, tendo desprezado a lira e a cítara, instrumentos sem alma, rege o Universo pelo Espírito Santo; e rege em especial essa abreviatura do mundo que é o homem, alma e corpo. Ele toca para Deus este instrumento de mil vozes, e canta em sintonia com este instrumento humano: tu és para mim cítara, flauta e templo. Enviando o seu sopro a este belo instrumento que é o homem, o Senhor fê-lo à sua imagem, pois Ele próprio está em sintonia com este instrumento de Deus que é todo harmonia, afinado e santo, sabedoria supraterrena e Palavra do alto. Qual é o objetivo deste instrumento, o Verbo de Deus, do Senhor e do seu cântico novo? Abrir os olhos aos cegos e os ouvidos aos surdos, reconduzir os coxos e os perdidos à justiça, mostrar Deus aos homens, acabar com a corrupção, vencer a morte, reconciliar os filhos desobedientes com o Pai. Este instrumento de Deus ama os homens: o Senhor tem misericórdia, instrui, exorta, adverte, salva, protege e, por fim, como recompensa da nossa confiança, promete-nos o reino dos Céus. De nós, quer apenas uma coisa: a nossa salvação. Eis, pois, nas vossas mãos o objeto da promessa, eis este amor pelos homens: recebei a vossa parte de graça. E não penseis que o meu cântico de salvação é novo como uma casa é nova, pois ele já existia «de manhã cedo» (Sl 118,147) e «no princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus» (Jo 1,1). Eis o cântico novo da aparição que acaba de brilhar entre nós, do Verbo que estava no princípio e que já existia. Com efeito, acaba de aparecer Aquele que já existia como Salvador; apareceu Aquele que era Senhor no Ser, porque «o Verbo estava em Deus» (Jo 1,1); apareceu o Verbo, pelo qual todas as coisas foram criadas.

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