Domingo III da Quaresma (Ano C)

Ano C

A difícil tarefa de esperar

Todos o conheciam. Desde pequeno tinha sido um inadaptado. Os pais não sabiam o que fazer, mas também não sabiam porque era ele assim. Os professores na escola queixavam-se permanentemente e ninguém queria a turma onde ele estava. Os colegas tornaram-se indiferentes à sua rebeldia e já não reagiam.

Todos pensavam que um dia iria acabar mal. Pessoas como ele não vão longe. E acertaram. Pela vida fora tornou-se um insuportável.

Um dia, há sempre um dia, caiu em si e todos perguntavam: “é ele?” nem queriam acreditar na mudança que se operou e estava patente aos seus olhos.

LEITURA I           Ex 3, 1-8a.13-15

Naqueles dias,
Moisés apascentava o rebanho de Jetro,
seu sogro, sacerdote de Madiã.
Ao levar o rebanho para além do deserto,
chegou ao monte de Deus, o Horeb.
Apareceu-lhe então o anjo do Senhor
numa chama ardente, do meio de uma sarça.
Moisés olhou para a sarça, que estava a arder,
e viu que a sarça não se consumia.
Então disse Moisés: «Vou aproximar-me,
para ver tão assombroso espetáculo:
por que motivo não se consome a sarça?».
O Senhor viu que ele se aproximava para ver.
Então Deus chamou-o do meio da sarça:
«Moisés, Moisés!».
Ele respondeu: «Aqui estou!».
Continuou o Senhor:
«Não te aproximes.
Tira as sandálias dos pés,
porque o lugar que pisas é terra sagrada».
E acrescentou: «Eu sou o Deus de teus pais,
Deus de Abraão, Deus de Isaac e Deus de Jacob».
Então Moisés cobriu o rosto,
com receio de olhar para Deus.
Disse-lhe o Senhor:
«Eu vi a situação miserável do meu povo no Egito;
escutei o seu clamor provocado pelos opressores.
Conheço, pois, as suas angústias.
Desci para o libertar das mãos dos egípcios
e o levar deste país para uma terra boa e espaçosa,
onde corre leite e mel».
Moisés disse a Deus:
«Vou procurar os filhos de Israel e dizer-lhes:
‘O Deus de vossos pais enviou-me a vós’.
Mas se me perguntarem qual é o seu nome,
que hei de responder-lhes?».
Disse Deus a Moisés:
«Eu sou ‘Aquele que sou’».
E prosseguiu:
«Assim falarás aos filhos de Israel:
O que Se chama ‘Eu sou’ enviou-me a vós».
Deus disse ainda a Moisés:
«Assim falarás aos filhos de Israel:
‘O Senhor, Deus de vossos pais,
Deus de Abraão, Deus de Isaac e Deus de Jacob,
enviou-me a vós.
Este é o meu nome para sempre,
assim Me invocareis de geração em geração’».

Deus não é indiferente ao sofrimento dos homens. Ele é um Deus presente, aproxima-se, escuta, vê, conhece a nossa desgraça e dispõe-se a libertar. Moisés é o escolhido para ir em seu nome ao Egito a fim de conduzir o povo a uma terra onde corre leite e mel.

Salmo Responsorial     Sl 102 (103), 1-4.6-8.11 (R. 8a)

O salmista, um homem que passou pela experiência do pecado, reconhece que Deus o salvou da sua situação de desgraça. Foi o Senhor, porque é misericordioso e compassivo quem lhe deu uma nova vida pelo perdão. Foi o Senhor quem o curou, salvou e coroou de glória. Por isso o salmista não pode esquecer “nenhum dos seus benefícios”. Se a misericórdia de Deus foi grande para com ele, agora, ele há de bendizer o Senhor com toda a alma.

LEITURA  II        1Cor 10, 1-6.10-12

Irmãos:
Não quero que ignoreis
que os nossos pais estiveram todos debaixo da nuvem,
passaram todos através do mar
e, na nuvem e no mar,
receberam todos o batismo de Moisés.
Todos comeram o mesmo alimento espiritual
e todos beberam a mesma bebida espiritual.
Bebiam de um rochedo espiritual que os acompanhava:
esse rochedo era Cristo.
Mas a maioria deles não agradou a Deus,
pois caíram mortos no deserto.
Esses factos aconteceram para nos servir de exemplo,
a fim de não cobiçarmos o mal,
como eles cobiçaram.
Não murmureis, como alguns deles murmuraram,
tendo perecido às mãos do anjo exterminador.
Tudo isto lhes sucedia para servir de exemplo
e foi escrito para nos advertir,
a nós que chegámos ao fim dos tempos.
Portanto, quem julga estar de pé
tome cuidado para não cair.

A experiência vivida pelos israelitas na saída do Egito, serve de exemplo para os coríntios. De facto, não basta ser batizado nem participar na assembleia litúrgica, para agradar a Deus. No deserto todos beneficiaram da libertação, mas nem todos agradaram a Deus. Os coríntios também correm o risco de realizar ritos vazios, que não salvam, por falta de uma verdadeira conversão.

EVANGELHO    Lc 13, 1-9

Naquele tempo,
vieram contar a Jesus
que Pilatos mandara derramar o sangue de certos galileus,
juntamente com o das vítimas que imolavam.
Jesus respondeu-lhes:
«Julgais que, por terem sofrido tal castigo,
esses galileus eram mais pecadores
do que todos os outros galileus?
Eu digo-vos que não.
E se não vos arrependerdes,
morrereis todos do mesmo modo.
E aqueles dezoito homens,
que a torre de Siloé, ao cair, atingiu e matou?
Julgais que eram mais culpados
do que todos os outros habitantes de Jerusalém?
Eu digo-vos que não.
E se não vos arrependerdes,
morrereis todos de modo semelhante.
Jesus disse então a seguinte parábola:
«Certo homem tinha uma figueira plantada na sua vinha.
Foi procurar os frutos que nela houvesse,
mas não os encontrou.
Disse então ao vinhateiro:
‘Há três anos que venho procurar frutos nesta figueira
e não os encontro.
Deves cortá-la.
Porque há de estar ela a ocupar inutilmente a terra?’.
Mas o vinhateiro respondeu-lhe:
‘Senhor, deixa-a ficar ainda este ano,
que eu, entretanto, vou cavar-lhe em volta e deitar-lhe adubo.
Talvez venha a dar frutos.
Se não der, mandá-la-ás cortar no próximo ano».

Todos os homens são pecadores e ninguém pode atribuir a si mesmo uma condição isenta de condenação. Deus é quem usa de misericórdia e paciência para salvar a todos. As desgraças não são castigos de Deus pelo pecado do homem, mas devem servir para todo o homem reconhecer a sua condição e empreender um caminho de conversão. “Se não vos arrependerdes, morrereis todos do mesmo modo”.

Reflexão da Palavra

Para entender o texto da primeira leitura é necessário conhecer o contexto. Moisés, depois de ter sido tratado como um príncipe no Egito, cai em desgraça ao matar um egípcio para proteger um escravo, um hebreu. Por esse motivo tem que fugir para o deserto. É ali, junto do monte Sinai, que Deus o vai encontrar a guardar o rebanho do seu sogro.

Deus atrai para ele a atenção de Moisés através de um sinal, “uma chama ardente, do meio de uma sarça”. Neste encontro com Deus, Moisés faz uma experiência pessoal através da qual conhece Deus, conhece a história deste Deus com o seu povo e descobre-se ele mesmo chamado. Em primeiro lugar percebe que não pode ver Deus nem conhecer o seu nome, apenas sabe que ele é quem faz existir todas as coisas “Eu sou Aquele que sou”. Percebe também que há uma história anterior a ele, na qual Deus está implicado com os homens, “Eu sou o Deus de teus pais, Deus de Abraão, Deus de Isaac e Deus de Jacob” e que ele faz parte dessa história. Depois percebe que o Senhor não é um Deus distante, ele vê, escuta, conhece e aproxima-se do seu povo, “Eu vi a situação miserável do meu povo… escutei o seu clamor… Conheço as suas angústias… Desci para o libertar…”. Finalmente vê-se chamado e enviado como instrumento da salvação que Deus quer para o seu povo, com uma única certeza “Eu estarei contigo” (Ex 3,12).

No seguimento da leitura de Êxodo, o salmo 102 vem reafirmar o poder de Deus. De facto, é ele quem “perdoa… cura… Salva… faz justiça… defende… coroa-te de graça e misericórdia”. O Senhor é um Deus que se revela como aquele que ama o seu povo e o ama com amor eterno “o amor do Senhor é eterno” (V. 17), através de sinais e prodígios “revelou a Moisés os seus caminhos e aos filhos de Israel os seus prodígios”. Reconhecendo-se alvo deste amor, o salmista convida-se a si mesmo e convida os anjos, os astros e todas as obras criadas pelo Senhor a bendizer o Senhor, porque ele é um Deus “misericordioso e compassivo, paciente e cheio de amor” que “afasta de nós os nossos pecados” e “como um pai se compadece se compadece dos filhos”.

O texto da carta aos Coríntios é uma chamada de atenção de Paulo aos cristãos daquela comunidade, por causa da possibilidade de regressarem à idolatria, onde já viveram e de onde foram resgatados por Cristo, através do Batismo e da Eucaristia.

Paulo utiliza como exemplo a experiência dos israelitas libertados do Egito. Eles foram alvo dos dons de Deus que os libertou, caminhou à sua frente, os protegeu com a nuvem, fê-los atravessar o Mar Vermelho a pé enxuto, deu-lhe a beber uma “bebida espiritual” e a comer “um alimento espiritual”, foram também batizados, na nuvem e no mar e, mesmo assim, não agradaram a Deus porque murmuram e cobiçaram o mal.

Os coríntios, apesar de terem recebido o Batismo e de participarem do pão da Eucaristia, podem também não resistir ao mal e acabar caindo na tentação. Por isso, Paulo alerta, “quem julga estar de pé tome cuidado para não cair”.

O evangelho apresenta dois acontecimentos e uma parábola. Os dois acontecimentos referem o drama da existência humana marcada pela desgraça e pelo sem sentido do sofrimento e da morte. Vêm contar a Jesus que Pilatos mandou matar alguns galileus que estavam no templo a oferecer sacrifícios, provavelmente por serem daqueles que se opõem ao domínio romano. Claramente a situação diz que Deus devia ter protegido aqueles homens porque, afinal, eles até estavam a realizar um ato de culto.

O próprio Jesus recorda um outro acontecimento em que uma torre caiu, provocando, de modo trágico, a morte de dezoito homens. Onde estava Deus naquele momento?

Jesus não permite que se atribua a Deus a culpa das desgraças nem que estas sejam entendidas como castigo divino por causa do pecado. Por isso deixa claro que aqueles homens não eram mais pecadores do que todos os outros. 

Diante da realidade humana quem está em causa é o homem e não Deus. Por isso Jesus apressa-se a apresentar a parábola da figueira para identificar uma questão mais importante, que é a da paciência de Deus.

Do ponto de vista humano ou atiramos culpas para Deus ou para as autoridades ou então, não havendo outra solução corta-se a figueira pela base. Mas na perspetiva de Deus há sempre uma solução para o homem, que é a misericórdia, “deixa-a ficar ainda este ano, que eu, entretanto, vou cavar-lhe em volta e deitar-lhe adubo. Talvez venha a dar frutos”. A misericórdia de Deus é o sinal da sua paciência. O homem beneficia do tempo de Deus, da sua paciência. Mas esse tempo é um contínuo chamamento à conversão, “se não vos arrependerdes, morrereis todos do mesmo modo”. A morte, a tragédia, o mal, são um sinal permanente de que precisamos de conversão. Os que morrem, aqueles sobre quem se abate a desgraça não são mais pecadores do que os outros. Mas para eles terminou o tempo, enquanto para todos os outros, ainda é tempo de conversão, “deixa-a ficar ainda este ano”. Deus espera que o resultado final possa ser bom e a sua paciência não terá sido em vão.

Meditação da Palavra

Julgais que, por terem sofrido tal castigo, esses galileus eram mais pecadores do que todos os outros galileus? Eu digo-vos que não. E se não vos arrependerdes, morrereis todos do mesmo modo”.

Deus não é o causador das nossas desgraças nem atua contra nós por nenhuma razão, nem sequer por causa do nosso pecado. A misteriosa ação de Deus tem sempre como objetivo salvar o homem da sua miséria, da sua desgraça, do seu pecado, arrancá-lo à sua existência medíocre e fazê-lo voar para lá de si mesmo. Por isso, Deus não se cansa de chamar o homem à conversão porque sabe que, no pecado o homem não é feliz, é um escravo de si mesmo, dos outros, das opções erradas, de experiências enganadoras ou da alienação que oculta a verdade.

Deus visita o homem ali onde ele se encontra, na sua realidade concreta que, muitas vezes, é de grande miséria, “Eu vi a situação miserável do meu povo”. Se Israel era escravo no Egito, todos os homens têm o seu Egito onde anulam as possibilidades de viverem e serem livres. Por vezes a escravatura é provocada pelo próprio que se impede a si mesmo de viver, outras vezes é fruto de uma maneira de pensar social que não permite ver para lá do pensamento comum, algumas vezes é a rendição ao nível superficial da vida.

Moisés, por exemplo, quando Deus o encontra no Horeb a guardar o rebanho do seu sogro, preparava-se para passar ali o resto dos seus dias, convencido de que não merecia mais do que aquela vida. Regressar ao Egito estava fora de questão porque seria condenado pela morte de um egípcio. Libertar o seu povo era, para ele, impossível pois não reunia condições para enfrentar o Faraó e o seu exército. Deus vem arrancá-lo da sua mediocridade, das suas impossibilidades e pede-lhe que se converta em instrumento dócil do seu projeto de salvação, sem medo das consequências e confiado apenas numa certeza “Eu estou contigo”.

No tempo de Jesus as pessoas viviam fechadas na ideia de um Deus castigador, sempre pronto a reprimir, com desgraças, o mal realizado. Era assim que entendiam a morte dos revoltosos que tinham ido ao templo oferecer sacrifícios. Pilatos tomara a decisão de não permitir que fizessem propaganda contra Roma dentro da cidade e mandou-os matar misturando o seu sangue com o das vítimas que eles imolavam.

Jesus adverte que a violência perpetrada contra eles por Pilatos não é um castigo de Deus e também não tem nada a ver com o pecado por eles cometido, pois todos os outros galileus eram pecadores e não sofreram aquele castigo. Este não é o modo de Deus agir. E recorda com outro exemplo, o da torre de Siloé, que estes acontecimentos devem ser uma oportunidade para repensar a vida, que é breve, numa conversão total.

O salmista coloca-se na posição certa. Ele era um pecador que efetivamente merecia um castigo por causa do seu pecado, mas encontrou em Deus a misericórdia e paciência, porque o Senhor “perdoa todos os teus pecados e cura as tuas enfermidades”. Sentindo-se salvo pelo Senhor, o salmista faz um verdadeiro elogio da misericórdia de Deus, “é grande a sua misericórdia”, e compromete-se a bendizer o Senhor com toda a alma.

É dessa paciência que fala a parábola da figueira, contada por Jesus. Ele é o vinhateiro que não pensa como os homens. Para os homens, se a figueira não dá fruto, é inútil e deve ser cortada. Mas para Deus há sempre uma possibilidade. Com um pouco mais de cuidado, pode ainda vir a dar fruto. O pecado do homem não é impedimento para Deus continuar a acreditar que é possível o arrependimento, a mudança de vida.

Na verdade, é difícil sair da indiferença com que por vezes se vive a vida. Paulo adverte os coríntios para o facto de poderem reduzir a sua experiência cristã a uns quantos ritos religiosos e confiarem que por já os terem realizados não precisam de se preocupar porque já estão salvos. Na verdade, assim aconteceu aos hebreus libertados do Egito. Fizeram todos a mesma experiência, mas nem todos assumiram um comportamento digno diante de Deus e morreram na sua indiferença e obstinação.

Pode acontecer assim aos cristãos de Corinto e aos cristãos de hoje. Convencidos de que já são cristãos, já têm muita fé, já cumprem todos os preceitos, já são melhores do que os outros, não veem a necessidade de conversão e acabam por morrer no seu pecado. Nos outros podemos ver o exemplo do que pode acontecer connosco se não entrarmos na dinâmica da quaresma como convite à conversão para encontrar em Cristo, o rochedo seguro.

Ou incapazes de acreditar no poder libertador de Deus, podemos nós, como Moisés ficar fechados numa vida medíocre por não termos as armas necessárias para lutar contra os inimigos da liberdade ou, reconhecendo a nossa culpa, pensarmos que não podemos ser instrumentos da libertação dos homens, com medo que nos apontem os nossos erros.

Ou, talvez, incapazes de reconhecer o amor misericordioso de Deus permanecermos prisioneiros do medo causado pela ideia de um Deus castigador, diante do qual será melhor ficar escondido atrás de uma vida superficial onde nada acontece.

Convertamo-nos à paciência de Deus e demos a nós mesmos a possibilidade de uma vida nova.

Rezar a Palavra

Senhor, como fizeste com Moisés, fazes comigo uma história. Arrancas-me das minhas certezas e das minhas impossibilidades, e levas-me aonde nunca imaginei poder algum dia chegar. Libertas-me de mim mesmo e da minha indiferença e faze-me instrumento para que a tua libertação chegue a todos os homens. Mostra-me a tua misericórdia para reconhecer que só tu Senhor, és o salvador da minha vida.

Compromisso semanal

Analiso a minha vida para ver que frutos estou a produzir.

Via: aliturgia.com

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