A Igreja assolada pelas perseguições

São Gregório Magno (c. 540-604)papa, doutor da Igreja
Livro VIII, SC 212

«E eis que um mentiroso se levanta diante de mim e fala contra mim» (Jb 16,8 Vg). Até nas suas horas de tranquilidade a Santa Igreja é assolada pela mentira, pois há no seu seio muitos espíritos que, já não sendo fiéis à promessa da eternidade, mentem, dizendo-se fiéis. E, como eles não têm coragem para contradizer abertamente a sua pregação, ela suporta a mentira, não cara a cara, mas, por assim dizer, pelas costas. Quando, porém, soa a hora do maligno, aquele que agora calunia com medo vem contradizê-la na cara e as palavras da verdadeira fé são bloqueadas pelo seu clamor. Mas temos de estar conscientes de que, quando nos confrontamos com os golpes dos homens carnais, não são tanto eles que pretendem a nossa morte, mas o espírito maligno, o príncipe das suas almas, como diz São Paulo: «Temos de lutar corpo a corpo, não contra a carne e o sangue, mas contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo de trevas» (Ef 6,12). É por isso que, falando mais uma vez da mentira, Job faz o retrato do príncipe desta mentira, transformando assim a sua frase: «Concentrou em mim a sua cólera e, ameaçando-me, rangia os dentes contra mim. O meu inimigo olhava-me com olhos terríveis» (Job 16,10). O que são todos os injustos, senão membros do demónio? É ele que faz, através deles, o que lhes inspira no coração. Ora, se para já ele apenas tem furor contra a Santa Igreja, o seu furor está disperso, porque é nos indivíduos que suscita tentações secretas contra ela. No dia, porém, em que se lançar contra ela em perseguição aberta, concentrará a sua fúria, porque reunirá todos os esforços da sua vontade para a derrubar.

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