A sabedoria cristã

Do Sermão de São Leão Magno, papa, sobre as Bem‑aventuranças
(Sermo 95, 4-6: PL 54,462-464) (Sec. V)

   O Senhor continuou, dizendo: Bem‑aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. Esta fome não deseja nada corporal, nem esta sede busca coisa alguma terrena, mas aspira aos bens da justiça, deseja conhecer o segredo de todos os mistérios, quer saciar‑se com o próprio Deus.
   Feliz a alma que suspira por este alimento da justiça e deseja ardentemente esta bebida; certamente não a desejaria se não tivesse saboreado a sua suavidade. Pressentiu o gosto da doçura celeste ao ouvir a palavra profética: Saboreai e vede como é bom o Senhor; e de tal modo se inflamou nas alegrias do casto amor, que, renunciando a todas as coisas temporais, desejou ardentemente comer e beber a justiça e compreendeu a verdade daquele mandamento que diz: Amarás o Senhor Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças; porque amar a Deus é amar a justiça. 
   E assim como o amor de Deus está sempre associado à solicitude pelo próximo, também este desejo da justiça é sempre acompanhado pela virtude da misericórdia; por isso diz o Senhor: Bem‑aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.
   Reconhece, ó cristão, a sublime dignidade da tua sabedoria e compreende a excelência dos seus caminhos e a admirável recompensa a que és chamado. Aquele que é a misericórdia quer que sejas misericordioso, Aquele que é a justiça quer que sejas justo, para que, mediante a imitação das obras divinas, o Criador Se manifeste na sua criatura e a imagem de Deus resplandeça no espelho do coração humano. Nunca será frustrada a fé dos que praticam boas obras; se assim fizeres, cumprir‑se‑ão os teus desejos e gozarás eternamente os bens que amas.
   E porque através da esmola tudo se torna puro para ti, chegarás também àquela bem‑aventurança que a seguir foi prometida pelo Senhor com estas palavras: Bem‑aventurados os
puros de coração, porque verão a Deus. Grande é a felicidade, irmãos caríssimos, daquele para quem está preparado tão grande prémio. Que é ter o coração puro, senão praticar diligentemente as virtudes anteriormente mencionadas? E que inteligência é capaz de compreender, que língua saberá explicar a imensa felicidade que é ver a Deus? E no entanto é isso precisamente que há‑de conseguir a natureza humana quando for transformada: verá a Divindade em Si mesma, não já como num espelho, de maneira confusa, mas face a face; verá Aquele que jamais homem algum pôde ver; então, o que os olhos não viram, nem os ouvidos escutaram, nem jamais passou pela mente humana, será conseguido na alegria inefável da contemplação eterna.

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