«Tocai-Me e vede»

São Pedro Crisólogo (c. 406-450) bispo de Ravena, doutor da Igreja
Sermão 31, oitavo sobre a ressurreição do Senhor

Depois da ressurreição, como o Senhor entrava nas salas com todas as portas fechadas (cf Jo 20,19), os discípulos não acreditavam que Ele tivesse reencontrado a realidade do seu corpo: supunham que se tratasse apenas da sua alma, sob uma aparência corporal, como as imagens que aparecem em sonhos: «julgavam ver um espírito». […] «Porque estais perturbados e porque se levantam esses pensamentos nos vossos corações? Vede as minhas mãos e os meus pés». «Vede» quer dizer: prestai atenção. Porquê? Porque não é um sonho que estais a ter. Vede as minhas mãos e os meus pés porque, com os vossos olhos acabrunhados, não podeis ainda contemplar o meu rosto. Vede as feridas da minha carne, pois ainda não conseguis ver as obras de Deus. Contemplai as marcas feitas pelos meus inimigos, uma vez que ainda não podeis ver as manifestações de Deus. Tocai-Me para que a vossas mãos vos deem a prova, visto os vossos olhos estarem cegos a esse ponto. […] Descobri os buracos nas minhas mãos, olhai o meu lado, reabri as minhas feridas, pois não posso recusar aos meus discípulos, com vista à sua fé, o que não recusei aos meus inimigos no suplício. Tocai, tocai […], buscai até aos ossos, para confirmar a realidade da carne e que estas feridas, ainda abertas, atestem que sou mesmo Eu […] Porque não acreditais que ressuscitei, Eu que fiz reviver vários mortos à vossa vista? […] Quando estava suspenso na cruz, insultavam-Me dizendo: «Tu, que destruías o templo e o reedificavas em três dias, salva-Te a Ti mesmo! Se és Filho de Deus, desce da cruz e acreditaremos!» (Mt 27,40). O que é mais difícil: descer da cruz, arrancando os pregos, ou subir dos infernos, calcando a morte aos pés? Eis que realmente Me salvei a Mim mesmo e, destruindo as cadeias do inferno, subi para o mundo do alto.

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