A graça de Deus e seus frutos em nós
O Evangelho deste domingo apresenta uma promessa consoladora de Jesus aos seus Apóstolos, que também serve de alento a nós: “Não vos deixarei órfãos” (Jo 14, 18). Isso porque Ele inaugura uma nova forma de presença, que se realiza em nossas almas.
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João
(Jo 14, 15-21)
Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: 15 Se me amais, guardareis os meus mandamentos, 16 e eu rogarei ao Pai, e ele vos dará um outro Defensor, para que permaneça sempre convosco: 17 o Espírito da Verdade, que o mundo não é capaz de receber, porque não o vê nem o conhece. Vós o conheceis, porque ele permanece junto de vós e estará dentro de vós. 18 Não vos deixarei órfãos. Eu virei a vós. 19 Pouco tempo ainda, e o mundo não mais me verá, mas vós me vereis, porque eu vivo e vós vivereis. 20 Naquele dia sabereis que eu estou no meu Pai e vós em mim e eu em vós. 21 Quem acolheu os meus mandamentos e os observa, esse me ama. Ora, quem me ama, será amado por meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei a ele.
Neste 6.º Domingo da Páscoa, a Igreja proclama o Evangelho de São João, capítulo 14, versículos do 15 ao 21, que apresenta uma promessa consoladora de Jesus aos discípulos e a todos nós: “Não vos deixarei órfãos” (Jo 14, 18).
Como os Apóstolos estavam tristes por sua partida, Cristo afirma que não irá abandoná-los, mas inaugurar uma nova forma de presença em nossas vidas. O Senhor anuncia-lhes então o envio do Espírito Paráclito, que “estará em vós” e, ao mesmo tempo, garante: “Eu [estou] em vós”.
Isso porque, quando estamos em estado de graça, a Trindade habita em nossa alma. Trata-se de uma verdade central: Deus não está distante, mas vive em nós. Essa presença, porém, não é em si mesma sensível. Não a vemos nem sentimos necessariamente. É uma realidade sobrenatural, acolhida pela fé: Deus permanece em quem a Ele se une pela caridade.
Ora, se é assim, por que, mesmo depois da Confissão, nem sempre percebemos uma mudança interior? Sim, fomos perdoados e estamos na amizade com Deus, mas continuamos a experimentar as mesmas fraquezas. Isso ocorre porque uma coisa é possuir a vida divina e outra é agir segundo ela. Com a graça, recebemos um “organismo espiritual”, uma vida nova que nos torna capazes de amar a Deus. No entanto, essa capacidade permanece como que em potência, ou seja, sem desenvolver-se plenamente, se não houver algo que a transforme em ato.
Podemos comparar essa realidade à condição de uma criança no ventre materno. Ela está viva, recebendo continuamente da mãe a vida que a anima, mas sem exercer em plenitude todas as suas capacidades. Se romper a ligação vital com a mãe, a criança morre. Algo semelhante acontece com a alma: quando se encontra em estado de graça, ela está unida a Deus; mas o pecado grave rompe essa ligação, e a alma passa a trilhar o caminho da morte espiritual.
Uma segunda comparação que nos ajuda a entender: estar em estado de graça é como ter um carro perfeito e em boas condições, mas parado na garagem; ele é capaz de viajar grandes distâncias, mas precisa de algo que o acione e ponha em movimento. O decisivo aqui é a graça atual, uma intervenção divina que nos move a agir e transforma a capacidade em ação concreta. Sem essa ajuda, a vida divina permanece, por assim dizer, como que inativa em nós. Por isso, não basta estar em estado de graça; é necessário receber continuamente os auxílios de Deus para amar efetivamente.
Ora, a graça atual não se adquire por esforço humano nem se “produz” por mérito próprio. Ela deve ser pedida. Precisamos como “mendigos da graça” suplicar a Deus, por meio da oração, essa capacidade de amar como Ele ama.
Mas, para recebermos a graça atual, nossa oração precisa revestir-se de três características: i) a humildade para reconhecer nossa incapacidade de amar a Deus por nossas próprias forças; ii) a confiança na promessa de Deus, porque Jesus disse: “Pedi e recebereis. Batei e abrir-se-vos-á” (Mt 7, 7); iii) e a perseverança na oração para insistirmos sem desanimar, como quem se reconhece totalmente dependente de Deus.
Como nos mostra o Evangelho deste domingo, não estamos pedindo sozinhos, Nosso Senhor está pedindo conosco. Essa é a alegria de sermos membros do Corpo de Cristo. Deus habita e age em nós. O cultivo da vida espiritual consiste nestas duas atitudes fundamentais: conservar, por um lado, a união com Deus (o estado de graça); e, por outro, suplicar constantemente o auxílio divino (a graça atual), para que essa vida se manifeste em atos concretos de caridade sobrenatural. Cristo não nos abandona. Ele mesmo, Mediador perfeitíssimo, intercede por nós e nos concede o seu Espírito Santo. Cabe a nós agora pedir confiantes, sem jamais desfalecer.
Via: padrepauloricardo.org
