Qual foi o maior pecado de Judas?

Será que a traição a Nosso Senhor foi o grande pecado de Judas? Ou o “filho da perdição” cometeu um pecado ainda mais grave? É o que Padre Paulo Ricardo responde neste episódio do programa “A Resposta Católica”.

Ao estudar a Paixão de Cristo, há um ponto recorrente na exegese [1]: a expressão “um dos Doze” é usada quase exclusivamente para Judas. Esse detalhe revela o grande escândalo que marcou significativamente os primeiros cristãos: a traição veio precisamente de um dos Apóstolos escolhidos por Cristo.

Nos primeiros tempos da Igreja, esta ideia era profundamente marcante: não foram Pilatos, Caifás, Anás, Herodes, os soldados do Templo, os soldados romanos ou os fariseus que iniciaram a tragédia da Paixão, senão “um dos Doze”. Isso significa que Judas foi escolhido por Jesus, recebeu a graça para ser um grande santo e poderia ter seguido outro caminho. Se tivesse se arrependido verdadeiramente, hoje talvez houvesse igrejas dedicadas a São Judas Iscariotes, o arrependido. Mesmo após a traição, e com as malditas trinta moedas de prata em mãos, bastaria que ele tivesse olhado para Jesus e pedido perdão.

Jesus lançou sobre Judas o mesmo olhar de misericórdia que dirigiu a Pedro. São Lucas narra que, ao cantar o galo, “o Senhor olhou para Pedro” (Lc 22, 61) — um olhar de amor e de chamado ao arrependimento, não de acusação. No Horto das Oliveiras, quando Judas traiu Nosso Senhor com um beijo, esse olhar certamente foi o mais terno e compassivo; foi uma oferta singular de perdão e de misericórdia.

Contudo, Judas não acreditou que a misericórdia de Cristo fosse maior do que o seu pecado. Este, portanto, foi o seu verdadeiro erro: não a traição em si — para a qual teria volta —, mas a falta de fé no amor com o qual ele mesmo foi amado. Judas quis salvar-se por si mesmo, confiando em suas próprias forças, em vez de se entregar à graça do Senhor. Por isso, sua condenação não veio do pecado cometido, mas da recusa em receber o perdão — ele esperou de suas próprias forças e não das forças de Nosso Senhor. Assim, hoje, ele é o ser humano que está mais próximo de Satanás, nas profundezas do Inferno. 

Neste tempo de Quaresma, somos chamados a pedir perdão a Deus. No entanto, há muitas pessoas que, equivocadamente, pensam que seus pecados são maiores que a misericórdia e o amor de Jesus e que, por isso, não adiantaria sequer ir à Confissão. Porém, o olhar de Jesus está sobre nós, dizendo que o amor de Deus é sumamente maior do que qualquer pecado. A Primeira Carta de São João recorda-nos: “Se o teu coração te acusa, Deus é maior do que o teu coração” (1Jo 3, 20). A misericórdia divina não conhece limites. Portanto, tenhamos coragem, levantemo-nos, como o filho pródigo, e digamos: “Voltarei para a casa do meu Pai”. 

Notas

  1. A exegese é uma ciência dentro da teologia que analisa a Bíblia a partir dos manuscritos antigos e das línguas originais, realizando um trabalho minucioso para nos fornecer uma base sólida de estudo. Depois, evidentemente, integramos esse conhecimento à fé, à teologia e à espiritualidade. Um exemplo notável de exegeta é o Padre Raymond Brown, um sulpiciano que dedicou dez anos à escrita de dois volumes sobre a morte do Messias. Ele analisou detalhadamente cada aspecto da Paixão nos quatro Evangelhos, comparando as interpretações de diversos exegetas ao longo da história. Mesmo que não concordemos com todas as suas conclusões, seu trabalho fornece uma visão abrangente do tema.

Via: padrepauloricardo.org

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *